1. Por que a discussão sobre a escala 6x1 importa tanto para o transporte

A proposta de reduzir a jornada semanal de 44 para 40 horas e, na prática, extinguir a escala 6x1 reacendeu um debate sensível para o setor de transportes. Em audiência pública na Câmara dos Deputados, a Confederação Nacional do Transporte (CNT) apresentou o estudo “Redução de jornada, mudança de escalas e bem-estar social no setor de transportes”, detalhando os efeitos econômicos e operacionais de uma mudança abrupta na jornada.

O ponto central do material é que o transporte é um setor intensivo em mão de obra, que opera 24 horas por dia, sete dias por semana, sustentando mobilidade urbana, abastecimento de cargas e serviços essenciais. Qualquer alteração em jornada e escalas, portanto, não é apenas uma conta de horas, mas uma mudança estrutural no desenho operacional de empresas de passageiros e cargas.

2. Setor já opera sob forte pressão de custos e mão de obra

Os dados apresentados pela CNT mostram que o transporte combina alta formalização com grande exposição à folha: cerca de 92,1% dos vínculos são de empregados assalariados e 47,3% do valor agregado bruto (VAB) já é destinado a gastos com pessoal.

Ao mesmo tempo, o excedente operacional bruto e o EBITDA do setor vêm recuando – em torno de 9% e 12%, respectivamente, em média –, o que reduz a margem para absorver choques adicionais de custo de trabalho. Some-se a isso a escassez de profissionais qualificados: pesquisas da própria CNT apontam dificuldade de contratação em todos os modais, com destaque para motoristas no transporte rodoviário.

3. O choque estimado: custo maior, PIB menor e risco de demissões

Segundo as simulações apresentadas, a redução da jornada para 40 horas semanais, sem redução proporcional de salários, elevaria o valor da hora trabalhada em torno de 10%. No transporte, isso se traduz em um aumento imediato de aproximadamente 8,6% no custo com pessoal.

Em valores agregados, o estudo estima um choque anual de custo entre R$ 11,9 bilhões e R$ 28,1 bilhões apenas no setor de transportes. Após ajustes de mercado (reorganização de operações, automação, fechamento de postos etc.), a perda anual de produto no PIB de transportes é projetada entre R$ 4,8 bilhões e R$ 9,6 bilhões, com uma dispensa líquida estimada entre 42 mil e 84 mil trabalhadores do segmento.

A CNT destaca que o transporte não absorve esse choque sozinho: ele tende a ser repassado a fretes, tarifas urbanas, serviços postais, logística e, em última instância, a preços ao consumidor e à inflação.

4. Jornada no Brasil já vem caindo, mas por negociação

Outro ponto ressaltado na apresentação é que a jornada efetiva no Brasil já está em trajetória de queda, em grande parte por negociação coletiva setorial. Em 2024, a jornada média praticada foi de 38,4 horas semanais, o que corresponde a cerca de 1.709 horas anuais de trabalho.

Sob a ótica do estudo, a combinação de mudanças constitucionais e o fim da escala 6x1 implicaria uma redução abrupta estimada em 421 horas por ano na jornada, movimento considerado desalinhado com o padrão internacional, onde prevalecem gradualismo e negociação coletiva, não cortes bruscos com imposição de escala única.

5. No transporte, escala é desenho operacional — não apenas “folha de ponto”

As lâminas da CNT insistem em um aspecto pouco visível para quem olha apenas o texto constitucional: no transporte, a escala é parte do desenho operacional. No transporte urbano de passageiros, por exemplo, predomina a escala 6x1, muitas vezes com jornada “quebrada” para atender picos de demanda pela manhã e no fim da tarde.

No transporte rodoviário de cargas de longa distância, é comum não haver uma escala semanal fixa: motoristas são escalados para viagens completas, com paradas e períodos de descanso vinculados a trechos e à Lei do Motorista, seguidos de dois ou três dias de folga. Além disso, o setor já opera sob um ambiente regulado, com limites máximos de direção, intervalos obrigatórios, exames médicos e fiscalização rotineira, o que reduz espaço para improviso nas escalas.

A mensagem da CNT é que impor um único modelo semanal de escala significaria redesenhar frota, tripulação, janelas de operação, descanso legal e atendimento ao usuário simultaneamente — com riscos concretos de perda de serviço e de abastecimento, caso não haja recomposição de equipes.

6. Escassez de mão de obra agrava o cenário

O material também reúne dados de diversos modais que reforçam a dificuldade de encontrar profissionais. No setor aquaviário, estima-se um déficit de 2 mil a 4 mil oficiais de Marinha Mercante até 2030, exigindo a formação de cerca de 500 marítimos por ano para suprir a demanda.

No setor aeroviário, projeções indicam necessidade de aproximadamente 1,3 milhão de novos profissionais em 10 anos, incluindo pilotos, técnicos e comissários. No ferroviário, 44,4% das empresas relatam dificuldades para contratar profissionais capacitados, o maior percentual entre os modais pesquisados.

Já no transporte rodoviário, a combinação de altas exigências (habilitação específica, exames rigorosos, treinamentos obrigatórios), entrada tardia na categoria E (a partir de 21 anos) e mercado aquecido gera um quadro em que 44% das empresas brasileiras de transporte têm vagas abertas, e o mundo projeta cerca de 3,6 milhões de vagas de motoristas até 2028, segundo estimativas do setor.

7. Qual caminho a CNT defende?

A conclusão da apresentação é clara: a CNT não nega o debate sobre redução de jornada e revisão da escala 6x1, mas defende que isso seja feito com negociação coletiva, gradualismo e respeito às especificidades operacionais de cada segmento de transporte.

Na visão da entidade, uma mudança que imponha, de uma só vez, nova jornada máxima e escala rígida tende a produzir um choque de custos assimétrico, acentuar déficits de mão de obra, acelerar automação defensiva e pressionar tarifas e preços logísticos, com efeitos relevantes para a economia como um todo.

Para quem atua com relações trabalhistas, negociação coletiva, logística ou gestão de frota, o recado é pragmático: qualquer avanço em bem-estar e redistribuição de tempo livre precisa ser conciliado com soluções operacionais sustentáveis, sob pena de transformar uma agenda socialmente desejável em um problema de inflação, emprego e continuidade de serviços essenciais.

Para consulta: o relatório completo da CNT sobre jornada e escala no transporte pode ser acessado em: REDUÇÃO DE JORNADA, MUDANÇA DE ESCALAS E BEM-ESTAR SOCIAL NO SETOR DE TRANSPORTES (PDF) .

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