A discussão sobre o possível fim da escala 6×1 deixou de ser apenas uma pauta legislativa e passou a ser observada também na rotina de empresas que já decidiram testar modelos diferentes de organização do trabalho. Em vez de manter o formato tradicional de seis dias de trabalho para um de descanso, alguns negócios vêm adotando estruturas como 5x2 e até 4x3, principalmente em setores que historicamente funcionam com atendimento contínuo, como bares, restaurantes e cafeterias.
O tema ganhou ainda mais relevância com o avanço do debate no Congresso Nacional sobre a redução da jornada. Ao mesmo tempo, empresários e especialistas vêm discutindo como equilibrar bem-estar, produtividade, retenção de pessoal e sustentabilidade financeira. O cenário ainda é de transição, mas algumas experiências reais já permitem observar como essa mudança vem sendo recebida por quem está na linha de frente da operação.
Hamburgueria testou novo modelo e ampliou o resultado financeiro
Um dos casos concretos relatados é o de uma hamburgueria com duas unidades na cidade de São Paulo e uma no litoral paulista. O negócio era administrado em um sistema híbrido que alternava semanas em escala 6×1 e 5×2. Na prática, os funcionários trabalhavam uma semana com apenas um dia de descanso e, na seguinte, em um modelo com duas folgas.
Segundo o empresário Fernando Russell, em junho de 2025 a empresa iniciou um teste em uma das unidades para reduzir a carga de trabalho da equipe. A adaptação incluiu mudanças no funcionamento da loja, como a abertura também às segundas-feiras, o que ajudou a compensar a necessidade de reorganização da equipe.
De acordo com o relato, o resultado do teste foi positivo. A unidade passou a apresentar desempenho financeiro melhor, sem redução da lucratividade. Além disso, houve diminuição das faltas e das trocas de funcionários, o que sugere maior estabilidade operacional após a reorganização da escala. A experiência foi considerada suficientemente satisfatória para que o modelo fosse levado também às demais unidades do grupo.
O empresário afirmou ainda que a mudança tende a produzir mais benefícios do que prejuízos, ao menos em negócios com gestão bem estruturada. Ao falar sobre pequenos empreendimentos, no entanto, ponderou que o impacto pode variar conforme o setor e o grau de profissionalização da gestão.
Coffee Lab adotou 4x3 em São Paulo
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Outro caso real citado é o da cafeteria Coffee Lab e escola de cafés, em São Paulo. A empresária Isabela Raposeiras decidiu ir além do modelo 5x2 e implementar a escala 4x3 nas lojas em julho de 2025. A decisão partiu de uma escolha de gestão, mas também de sua experiência pessoal com jornadas longas no passado.
Segundo o relato publicado, a empresária afirmou que nunca quis reproduzir na empresa a lógica da escala 6×1, justamente por conhecer os efeitos desse modelo sobre quem trabalha no atendimento direto ao público. Hoje, as unidades seguem funcionando todos os dias, mas com equipes organizadas em escala rotativa e com pelo menos duas folgas consecutivas. Já setores internos, como escritório e torrefação, ainda operam em 5x2, embora exista processo de transição em andamento.
A motivação principal, segundo a própria gestora, foi reduzir o desgaste de quem lida diariamente com consumidores. Após mudanças internas nos processos, a empresa conseguiu absorver a nova estrutura sem perda de eficiência. Ainda de acordo com o relato, a operação passou a registrar menos erros, maior estabilidade entre os trabalhadores e crescimento do faturamento ao longo do ano.
Gurumê implementou 5x2 em parte das unidades
Um terceiro caso concreto envolve o restaurante Gurumê, com unidades no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Brasília. A rede começou, em junho de 2025, a implementar a escala 5x2 em parte das operações, a partir de um redesenho da estrutura de funcionamento do restaurante.
A lógica adotada pela empresa partiu de um mapeamento detalhado da demanda por turno e por faixa horária. Com isso, o número de funcionários foi ajustado à necessidade real de cada período, o que permitiu ampliar as folgas sem aumento do quadro de trabalhadores.
Segundo Jerônimo Bocayuva, sócio-fundador da rede, o objetivo da mudança foi elevar retenção e desempenho, criando melhor equilíbrio entre vida pessoal e profissional. A avaliação da empresa é que isso já vinha repercutindo positivamente na experiência do cliente. Ao mesmo tempo, o empresário ressalvou que o formato não é necessariamente simples de replicar em operações menores, justamente porque negócios de menor porte têm menos margem para reorganizar turnos e equipes.
Nem toda redução de jornada funciona do mesmo jeito
Os casos relatados mostram que não existe um único modelo de transição. Enquanto alguns negócios migram para 5x2, outros experimentam 4x3. Em comum, todos precisam rever horários, turnos, folgas, distribuição de pessoal e funcionamento da operação.
A economista Patrícia Tendolini, mestre em Administração e coordenadora de cursos na PUCPR, observou que os efeitos da redução da jornada variam conforme o setor, o porte da empresa e a capacidade de reorganizar processos. Em atividades com maior uso de tecnologia e menos dependência de cobertura presencial contínua, a redução tende a ser absorvida com mais facilidade. Já em setores intensivos em mão de obra e com atendimento constante, o ajuste costuma ser mais complexo.
Estudos mencionados na reportagem indicam que não há relação automática entre redução da jornada e queda da atividade econômica. Um levantamento do Ipea, divulgado em fevereiro de 2026, apontou que a redução para 40 horas semanais, com manutenção dos salários, elevaria o custo médio do trabalho celetista em 7,84%. Ainda assim, quando se considera o peso da mão de obra no custo operacional total, o impacto agregado em setores como comércio e indústria ficaria abaixo de 1%.
Produtividade, saúde mental e retenção
Outro aspecto relevante da discussão envolve os efeitos indiretos de jornadas menos extensas. Segundo o economista Nelson Marconi, da FGV EAESP, trabalhadores com mais tempo livre tendem a retornar ao trabalho com maior disposição, o que pode influenciar o desempenho ao longo do tempo. Para ele, esse resultado depende menos de esforço individual e mais de reorganização inteligente do trabalho, com uso de tecnologia e redistribuição adequada das equipes.
A médica do trabalho Letícia Mameri, doutoranda em Bioética pela Universidade do Porto, também foi ouvida e apontou que jornadas prolongadas, com pouco tempo de descanso, estão associadas a maior risco de exaustão física e mental. Segundo a especialista, trabalhar seis dias seguidos e descansar apenas um aumenta a probabilidade de fadiga crônica, afeta o equilíbrio entre vida profissional e pessoal e pode contribuir para quadros de ansiedade, depressão, distúrbios do sono e até doenças cardiovasculares.
Em sentido oposto, escalas mais flexíveis tendem a favorecer a qualidade de vida, reduzir o estresse e sustentar melhor a produtividade no longo prazo. A discussão, portanto, deixou de se restringir ao número de horas trabalhadas e passou a incluir também saúde mental, estabilidade das equipes e atratividade dos postos formais.
Os obstáculos ainda são relevantes
Apesar dos resultados positivos relatados por algumas empresas, a mudança não é isenta de obstáculos. Patrícia Tendolini destacou que a definição do modelo é um desafio em si: migrar para 40 horas em 5x2 exige adaptações diferentes da adoção de 36 horas em 4x3. Além disso, comércio, indústria e serviços operam com demandas distintas, o que dificulta qualquer solução uniforme.
As pequenas empresas também aparecem como grupo mais sensível no processo, por terem menor margem financeira e menos espaço para recompor equipes. A isso se somam questões como negociação coletiva, segurança jurídica, compatibilização com banco de horas, horas extras e turnos diferenciados.
Do lado do setor de bares e restaurantes, o presidente executivo da Abrasel, Paulo Solmucci, alertou para riscos de aumento de custos e agravamento da escassez de mão de obra. Segundo ele, trabalhadores que dependem de gorjetas ou comissões, como garçons, podem sofrer perda relevante de renda caso passem a trabalhar menos dias, sobretudo nos fins de semana, quando o movimento costuma ser maior.
Um debate que já saiu da teoria
O que os casos da hamburgueria, do Coffee Lab e do Gurumê mostram é que o debate sobre o fim da escala 6×1 já entrou no terreno das experiências concretas. Em algumas empresas, a mudança veio acompanhada de melhora operacional e retenção. Em outras, ainda existe cautela sobre custos e sobre a viabilidade para estruturas menores.
O fato é que a jornada reduzida deixou de ser apenas promessa ou hipótese acadêmica. Há negócios reais testando novos formatos, com resultados também reais, positivos ou desafiadores. Se a escala 6×1 vai efetivamente perder espaço no Brasil, isso dependerá do Congresso, da economia e da adaptação dos setores. Mas uma coisa já parece certa: a discussão não é mais sobre um futuro distante, e sim sobre uma transformação que já começou.
Fonte: IstoÉ Dinheiro / Deutsche Welle.
Escrito por Anderson Fernandes
Advogado | Especialista em Direito do Trabalho e Processo do Trabalho
Atuação em direito do trabalho contencioso e consultivo, instrumentos coletivos e gestão de riscos trabalhistas
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