1. O que a CCJ decidiu sobre o fim da escala 6x1
A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados aprovou a admissibilidade de propostas de emenda à Constituição que tratam do fim da escala 6x1 e da reorganização da jornada de trabalho no país. Na prática, a CCJ concluiu que as PECs são constitucionais e podem seguir tramitando, mas ainda não entrou no mérito do conteúdo.
Os parlamentares acompanharam o voto do relator, deputado Paulo Azi (União Brasil-BA), que considerou as propostas compatíveis com a Constituição. Com isso, o tema será agora analisado em profundidade por uma comissão especial, etapa em que se discutem impactos econômicos, sociais e regras de transição.
2. Quais PECs estão na mesa
A matéria chega à comissão especial com diferentes modelos de reorganização da jornada. Entre os textos em debate, dois se destacam:
- PEC 8/2025 – propõe um modelo de quatro dias de trabalho e três de descanso, reduzindo significativamente o número de dias trabalhados na semana;
- PEC 221/2019 – prevê a redução da jornada semanal de 44 para 36 horas, sem detalhar, nesta fase, as contrapartidas econômicas.
As propostas têm em comum o objetivo de reduzir o tempo de trabalho, mas diferem na forma de distribuição da jornada. O próprio relator já sinalizou que a comissão poderá buscar uma solução intermediária, como a jornada de 40 horas semanais combinada com a escala 5x2, alinhando-se a debates já em curso entre governo e centrais sindicais.
3. Debate político: fim da 6x1 entre Executivo, Legislativo e setor produtivo
Embora a votação na CCJ tenha contado com apoio de governistas e oposicionistas, os discursos expuseram preocupações distintas. De um lado, há consenso sobre a importância de discutir redução de jornada e melhoria de qualidade de vida. De outro, aumenta a pressão para que o setor produtivo seja ouvido e para que a mudança não gere um choque abrupto em custos de mão de obra.
A análise ocorre em um contexto de disputa de protagonismo entre Executivo e Legislativo. Enquanto o governo apresentou o PL 1.838/2026, com foco na jornada de 40 horas e dois dias de descanso semanais, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), vem sinalizando que a PEC será o canal principal para redesenhar a jornada e o fim da escala 6x1, com expectativa de levar o tema ao Plenário até o fim de maio.
4. Impactos econômicos: custo de até 1% do PIB e pedidos de compensação
Estudos citados no debate estimam que a combinação entre redução de jornada e fim da escala 6x1 pode gerar impacto de até 1% do PIB, considerando aumento do custo-hora de trabalho, necessidade de reforço de quadro e efeitos de encadeamento em setores intensivos em mão de obra, como comércio, transporte, restaurantes e shoppings.
Diante desses números, entidades empresariais têm defendido algum tipo de compensação tributária, como desoneração da folha de pagamento ou redução de encargos sobre a contratação formal, para mitigar o impacto em preços, emprego e investimentos. Esse tema deve ser um dos pontos centrais da comissão especial.
5. O que a comissão especial deve discutir
A decisão da CCJ não altera imediatamente a jornada de ninguém, mas abre a fase em que o conteúdo da mudança será, de fato, desenhado. Entre os tópicos que tendem a dominar os debates da comissão especial estão:
- modelo de jornada: manter propostas mais ousadas (4x3, 36 horas) ou convergir para uma solução intermediária, como 40 horas e escala 5x2;
- regra de transição: como adaptar gradualmente setores que operam em regime contínuo (saúde, transporte, indústria, comércio), evitando rupturas abruptas;
- tratamento setorial: possibilidade de regras diferenciadas para atividades essenciais ou com forte sazonalidade;
- compensações econômicas: eventuais medidas de desoneração tributária ou incentivos para manter emprego e competitividade.
O relator já indicou que pretende ouvir representantes de trabalhadores, empresários e especialistas em economia do trabalho antes de fechar um parecer.
6. Próximas etapas da tramitação
Com a admissibilidade aprovada, o passo seguinte é a criação da comissão especial, composta por deputados indicados pelos partidos. Esse colegiado elabora um relatório sobre o mérito da proposta, que pode manter, alterar ou unificar os textos das PECs em discussão.
Depois dessa fase, a PEC precisa ser votada em dois turnos no Plenário da Câmara, com apoio de, no mínimo, 3/5 dos deputados em cada votação. Se aprovada, segue para o Senado, onde o rito se repete. Só então eventuais mudanças na Constituição sobre jornada e escala 6x1 se tornam realidade.
7. O que empresas e profissionais devem acompanhar
Para gestores de RH, departamento pessoal, jurídico trabalhista e finanças, o avanço da PEC na CCJ é um sinal de que o tema deixou de ser apenas discussão acadêmica e passou a integrar, de fato, a agenda legislativa com chances reais de aprovação.
Ainda é cedo para falar em regras definitivas, mas já é possível:
- monitorar versões de textos e relatórios da comissão especial, especialmente pontos sobre transição e setores específicos;
- simular cenários de custo de folha, ajuste de escalas e necessidade de reforço de quadro em modelos 5x2 ou jornada reduzida;
- participar de audiências públicas e consultas por meio de entidades setoriais, levando dados concretos sobre impactos e alternativas.
Em paralelo ao PL 1.838/2026, a tramitação das PECs na CCJ coloca o fim da escala 6x1 e a redução da jornada no centro da agenda política. Quem atua em gestão de pessoas e relações trabalhistas ganha ao acompanhar, desde já, como o desenho final conciliará bem-estar, produtividade e sustentabilidade econômica.
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Escrito por Anderson Fernandes
Advogado | Especialista em Direito do Trabalho e Processo do Trabalho
Atuação em direito do trabalho contencioso e consultivo, instrumentos coletivos e gestão de riscos trabalhistas
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